Por que os custos da saúde sobem tanto?

Publicado em 25 ago 2016 por Bárbara Araújo

custosaudePressionada pelo avanço da tecnologia e pelo envelhecimento da população, a variação das despesas assistenciais tende a superar a inflação geral no Brasil e no mundo.

O avanço da medicina e o envelhecimento da população influenciaram uma transição epidemiológica importante nas últimas décadas. Vive-se mais hoje em dia, a qualidade do serviço de saúde melhorou e a tecnologia trouxe novas perspectivas para o tratamento de diversas doenças. Em boa parte do mundo, inclusive nos países desenvolvidos, esses fatores também elevaram os custos com a assistência à saúde acima da in‑ ação geral, provocando, em muitos casos, um desequilíbrio ­financeiro difícil de ser superado. Nesse aspecto, o Brasil não foge à regra. A conta ­ ca cada vez mais amarga para bene­ficiários, operadoras e outros prestadores de serviços ligados à saúde. Mas, aqui, há um agravante em relação a outros países: o desperdício ainda é um dos maiores entraves à e­ ciência do setor.
Segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (Iess), o custo médico-hospitalar, ou seja, as despesas com internações, consultas, exames, medicamentos e outros tipos de procedimentos, cresceu 19% em 2015, confirmando uma tendência cada vez mais forte nesses tempos de crise. O índice é quase duas vezes superior à in‑ ação geral registrada no ano passado, e corrobora a conclusão de estudos que apontam o Brasil como uma das nações que apresentam a maior in‑ ação médica entre os grupos analisados.

Um relatório da cons1ultoria Aon Hewitt mostra que, nesse quesito, estamos muito atrás de outros países latino-americanos. De acordo com o documento, a in‑ ação médica bruta no Brasil encerrou 2015 em 18%, acima do índice do México (9,3%) e do Chile (6%). Nos países desenvolvidos, os Estados Unidos aparecem com taxa de 9%, seguidos por Reino Unido (7,8%) e França (6%). Historicamente, as despesas assistenciais apresentam aumentos superiores ao crescimento do PIB e também estão associadas ao maior poder aquisitivo da população, que passa a ter mais acesso à saúde e, assim, gera um importante aumento de demanda.

No sentido inverso, a tendência é de que a in‑ ação médica registre queda em tempos de crise econômica, como aconteceu na França e no Reino Unido depois da turbulência de 2008. Na ocasião, a desaceleração da taxa de crescimento dos gastos com a saúde acompanhou a retração da economia. No Brasil, no entanto, não é o que vem acontecendo.

QUESTÕES ESTRUTURAIS

A explicação para o crescente aumento dos gastos médico-hospitalares no país não se resume apenas aos números e indicadores da macroeconomia. Alguns estudos internacionais indicam que os avanços tecnológicos respondem por mais de 50% do aumento das despesas assistenciais, uma vez que exigem altos investimentos e não promovem necessariamente mudanças que também se traduzam em retorno ­ financeiro.

De qualquer forma, são investimentos necessários, que trazem outros benefícios não só para os pacientes, mas também aos médicos, hospitais e às próprias operadoras de saúde. “De modo geral, há muita inovação na área da saúde, e a tecnologia pode melhorar substancialmente a qualidade do atendimento”, diz Paulo Furquim, professor do Insper. “A questão é que ela [a tecnologia] não tem foco na redução dos custos de saúde. Isso pode abrir um leque enorme de problemas ligados ao desperdício”, conclui.

Desperdício é mesmo um ponto central para reduzir os gastos com serviços médico-hospitalares. A ine­ ciência produz impactos no setor como um todo e também decorre de questões estruturais, principalmente as associadas ao modelo de remuneração vigente no Brasil – conhecido como fee for service, em que os pagamentos a médicos e hospitais se baseiam na quantidade de procedimentos realizados. “Nesse modelo, não existem incentivos para os prestadores de serviço buscarem uma gestão mais adequada dos recursos utilizados”, comenta Eliane Kihara, líder da área de saúde da PwC.

Na prática, isso signi­fica que há pouca atenção aos custos e benefícios do atendimento, uma vez que a decisão do gasto com procedimentos desnecessários não considera suas consequências ao longo da cadeia da saúde suplementar.

O resultado é conhecido por quem circula nos corredores e consultórios dos hospitais. Calcula-se que a ine­ ciência do setor consuma quase um terço dos custos com serviços médico-hospitalares. Segundo a American Board of Internal Medicine, 30% dos gastos são destinados a procedimentos desnecessários, como exames, consultas e internações que não precisariam ser realizados.

Estima-se ainda que 20% das cirurgias também poderiam ser evitadas e que 30% das consultas marcadas não acontecem porque o paciente não comparece no dia e hora agendados. Esses números tornam-se ainda mais relevantes quando se olha para a composição das despesas assistenciais.

As internações consomem mais de 40% do total de recursos destinados ao atendimento à saúde da população, seguidas pelos exames (20%) e consultas (18%). Ou seja, juntos, esses três procedimentos somam quase 80% dos custos médico-hospitalares – uma cifra que totalizou R$ 119 bilhões em 2015, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Dentre as despesas com internações, a compra de materiais médicos recebe a maior parte dos recursos (22%), seguida pelos honorários médicos (19%) e pela aquisição de medicamentos (13%). Os dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (Iess) também mostram que as internações continuam respondendo pela maior parte do crescimento de 19% do VCMH (Variação dos Custos Médico-Hospitalares), índice calculado pelo instituto que resulta de uma combinação de fatores e preços dos serviços oferecidos pelas operadoras de saúde. Segundo o Iess, o aumento do VCMH entre 2014 e 2015 foi de quatro pontos percentuais.

GANHOS DE EFICIÊNCIA

Para reverter esse cenário, as alternativas vão da otimização e padronização de processos a mudanças estruturais, que gerem ganhos de e­ ciência e garantam a qualidade do atendimento. “Os países que passaram por mudanças no modelo de remuneração conseguiram reduzir os custos assistenciais na saúde”, lembra Eliane Kihara, da PwC. Ela cita o exemplo da África do Sul, que vivia uma realidade muito parecida com a do Brasil e conseguiu reverter a alta das despesas com a adoção do DRG (sigla em inglês para Grupo de Diagnósticos Relacionados). Bastante conhecido no mundo e adotado em muitos países desenvolvidos da Europa, esse modelo estabelece a precificação dos procedimentos de acordo com o per- ­ l e os riscos do bene­ficiário.

Os desembolsos ocorrem por evento e não há valor adicional para consultas de retorno, por exemplo, de modo que o sistema premie não só a e­ ciência do hospital, mas também a qualidade do atendimento. “Em três anos, o DRG permitiu que a África do Sul economizasse 30% nas despesas assistenciais de saúde”, diz a especialista da PwC. Há outros modelos similares e algumas possibilidades de combinar soluções que incentivem não só médicos e hospitais a reduzir o número de procedimentos, mas também estimulem os bene­ficiários a procurar os serviços de saúde de forma assertiva, apenas em caso de necessidade, e com base em critérios que considerem o custo-benefício de sua decisão. Nos sistemas de coparticipação, por exemplo, o usuário do plano de saúde pode ter de desembolsar uma parte da despesa com determinados procedimentos. “Hoje, o complexo sistema de contratações na cadeia da saúde suplementar distorce decisões fundamentais.

Para o seu bom funcionamento, é importante que o ônus e o bônus da decisão por determinado procedimento sejam dos agentes que realmente são responsáveis por essa decisão”, comenta Paulo Furquim, do Insper. Em comum, os modelos que hoje servem de referência para o Brasil preconizam mais garantias na qualidade do atendimento, como a criação de indicadores que estejam disponíveis ao público em geral e aos prestadores de serviços. “Na Europa, como não há pagamento por retorno, o médico é incentivado a resolver o problema do paciente”, diz Furquim. “Aqui, não. O sistema paga a mesma coisa para todos os médicos, porque se olha apenas para a quantidade de procedimentos. Ou seja, além de não haver incentivos para esses pro­fissionais, eles também não são reconhecidos pela qualidade de seu trabalho.”

 

Revista Visão Saúde (ano 1 Nº 1)

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